segunda-feira, 22 de agosto de 2016

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a cada descoberta tua
eu renasço 
a cada sorriso teu
o mundo se contorce
e ganha mais um pouco,
tudo que significa
se anula
tudo que se sente 
se reinventa.

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minhas mãos na maçaneta
denunciam meu cuidado 
com o silêncio.
tenho monumentos tortos
transparentes, cheios de pó, 
[firmes
que de tanto vazio se ergueram 
nas esquinas deste apartamento.
meus pés neste chão fosco
atestam meu cuidado 
com o silêncio.
tento enxergar reflexos
só a distorção do estranho me vem
é assim que me vejo?
às vezes não me reconheço
e espero mais um sol partir
enquanto os vermelhos todos
me alimentam.

-

aquelas montanhas
este céu
por que não me engolem?
livros densos
poesias que me alagam
o preto sem fim da cafeína
a valsa do pó ao meu redor
por que não me engolem?
amor efêmero 
pensamentos no fluxo absurdo
podridão do corpo - mais um
a eternidade que paira sob seus olhos
mentiras disfarçadas de sanidade
saudade que já tenho sem partir
por que não me engolem? 

por que não me engolem?

-

curvas retorcidas vibram
entre meus medos tolos
o que é mofo 
vez ou outra me intoxica.

sigo meus rígidos passos
alimento o tempo 
com solos
de cortes táteis.

há um ciclo de mesmices
que tento subverter 
quando lhe viro o rosto de manhã
quando digo ao meu filho:
— meu menino, não chore!
percebe como pesco o mundo 
com essas mãos 
onde mordo minhas angústias?

miro prédios com um plano de fundo falso,
posso puxar esse azul
com a ponta dos dedos,
meter nos teus olhos
toda essa secura.

há um manto morno
forrando meu agora.
eu viveria de alegorias
para lhe poupar
o peso do meu choro.
pela nuca ouço o caos rítmico,
das tragédias em sequência.

sou capaz de me encolher
até caber na fresta de luz
que invade o tédio. 
não sou capaz de me enganar sozinha

esses socos ao pé do ouvido bastam.

-

todos esses nadas
parados
me submetem 
ao risco
de achar que sou algo
quando na verdade
vou além
voo além 
das paisagens foscas
dos teus olhos
secos

-

salto do corpo
sempre
para pousar
no ombro
do tempo
:ele me acaricia
em cada ferida
feita pela palidez
do vazio
daqueles dias.

-

escalo minha tristeza,
golpes de ar no peito
a dor corta tudo 
e anestesia 

eu imploro 
por cortinas fechadas
deixo escorrer pelos olhos
todo o inferno

não me reconheço
aqui dentro 
meu útero abrigou
toda a luz da vida

eu sou grata
perturbada
e finda.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

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o amor em mim tornou-se caricato,
um eterno rascunho cantado.
da malemolência às marcas que gritam,
tudo desmorona em silêncio
para depois se reerguer no meu peito
esse inominável estopim de sentimento
que vibra aos tropeços,
porém intenso
como se eu te amasse de costas ao tempo
e sei da cólera de tudo isso melhor do que ninguém
porque afundo em ti como se fosse a cantiga da fúria
de um mar cruzando o vento.

rebanho

democracia, pasto de rebanho
política convertida em eco surdo
brindemos o mais sujo do absurdo
mas nas valetas, vielas, colheitas
brotarão nossos gritos em punhos.
a ação não é vaidosa de ofício
tão pouco de passado e glória
é carente de luta, enjoada de palavras
aqui e ali sei que há organização
de corpos em ebulição,
de teorias ansiando prática.
detestaremos os cumes sociais
e mesmo rastejando
lutaremos para nós, sem medo

vicente III

sinto o infinito
saltando de mim
o amor que mudo grita
a cada sorriso teu
o que é tempo
lembrança e memória
diante do seu olhar?
és a mais bela definição
de agora
você é meu instante
minha eterna novidade
meu amor constante

sábado, 16 de janeiro de 2016

40ª semana

no inverso do tempo,
desejaria eu um sol 
arrebentado no chão
escorrendo entre meus pés

sempre almejei a intensidade
:pressioná-la contra meu peito
ser exatamente esse absoluto 
a beleza do delírio num vento plano

quis ser tudo,

até ouvir seu coração, vicente
até chorar sua vida
até me sufocar com o invisível 
até conceber a paz tão caótica 

tornei-me, enfim, tudo.

16/01/2016 
dizem que você nascerá hoje...

sábado, 12 de setembro de 2015

inacabado

subo pela esquerda a rua do teu samba
a felicidade em brasa contrasta concreto
chamo de amor esse inominável morador de mim
que me ensinou a beijar almas, a enxergá-las
contorno vielas, traço rotas sem compasso
te ouço cantar trabalho para ordenar nossos passos
migro dessa voz pra morar em ti
e volta&meia me pego imersa
afogada com gosto de você.

Vida

me perco
na água que escorre pelo corpo
me perco
nos traços dispersos da pele
me perco 
no toque desfigurado de mim
observo-me por dentro:
há um amor anunciado
que preenche o vácuo
despenco
na água que escorre pelo rosto
despenco
nos traços dispersos do outro
despenco
no toque morno dos dedos
condecoro mentiras
declamo ao chuveiro
e cada azulejo se emociona.

Vicente

Tenho em mim aquilo que é inominável
Dos poros todo o amor impossível
E por ser tão dito torto: infinito
Concreto também em vida que me é inédita
Uma pobre falta de ar magnífica
Que me revirou a pele em metamorfose
Sou esse corpo duplo de sentimento
Em potencial abandono de mundos
Denso da mais elegante melancolia
Anti-narciso, apaixonada por cada dor
Contemplada pelo alheio ansioso
Meu homem, meu filho, meu amor.

Vicente II

deitada na cama
ria sozinha
observando os movimentos
do bebê
em sua barriga.
o apartamento:
nublado.
em cada fresta:
canto de vento.
no cômodo gelado:
rastro de ânsia.
ela ria sozinha
depois de pedir perdão
ao bebê
em sua barriga
e chorava
porque ele respondia.
ser mãe é abolir
toda a solidão possível:
ela nunca estava
sozinha.
admirava a beleza
da força de ser
em compasso
dois.

devaneio de junho

é o parque industrial de pagu o romance do proletariado. não li. penso que poderia vivê-lo, mas nunca sei de nada. é preciso estudar, ter fundamento teórico, mas não só. também penso que nada tenho a dizer ou a escrever, por isso me ancoro numa literatura qualquer. comecemos pelo óbvio: dentro deste sistema, nós trabalhadores sempre pegamos o ônus. preciso focar nisso e sair da primeira pessoa. maria das marias sustentava-se em suas pernas torneadas de quem caminhava pelo centro antigo de são paulo. num salto alto que contrastava com seu rosto em farrapos, maria das marias pedia um sorvete de flocos no habibs, contando suas moedas, às 2h da madrugada. dinheiro do trabalho, do corpo maltratado. eu grávida imaginei: e se maria das marias também estiver? provavelmente já esteve. negra como carolina maria de jesus. vejo carolinas potencializadas em marias. penso no meu bebê. comunista sentindo-se solitária. sinto saudade de ana cristina césar. anas, marias, carolinas... se eu for mãe de menina, ela se chamará rosa, como a rosa morena de caymmi. um, dois, três passos e você transforma a vida num samba frouxo, num sambinha.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

lasca de mim

tenho dessas de parar no tempo. digo, de morrer no tempo. paro na faixa pra atravessar enquanto dois cavalos passam. céu-cenário: bom dia! bom dia! queria que eu escrevesse algo mais inflamável, não é? o agora da minha cara pesa. gelatinosa vida essa que me deturpa. todos os anjos moídos dentro da minha cabeça. queimadura em néon e pasmem: sinto que alguém me bate. olha como pedalo atrás de suas orelhas! rárárá, ninguém lerá. um dom meu: causar preguiça. o que importa é que tô escoando esses dizeres da minha mente, amor. limpar a remela do olho. somos falsos — não que eu me importe com a verdade. continuo roendo unha até a última ponta. e essa luz que vem e vai, esse tremelique onírico em pleno dia festejando as sombras do apartamento? my eyes make waves. gosto do sol opaco, fosco e com essa pinta de apocalipse. na ponta da tinta o papel mama. até o caos frequenta o dentista. neste instante em diante sou ninguém, pra variar. me sinto esse troço sem nome. tenho certeza que tô só fazendo uma pausa dentro desse corpo. voltar é sempre frustrante, por isso não saio daqui. tão arremessadas ao mundo e tão bem patrocinadas as mocinhas. meus joelhos arrebentados estão uma graça. fico morta todo dia! você não? gastei muito tempo na plateia da rapaziada absurdinha. uiuiui. tô congestionada. regressa, fernanda. tá me atrofiando a alma, credo. pessoas&muros&murros. tudo saturação. vai sentir minha falta?

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Que vem de lugar nenhum

Nascer é a morte, não é? Não me sinto aqui; quer dizer, há um alguém fora de mim que lhe sorri, mas às vezes alcanço a margem dos meus olhos e percebo o quão perigosa é a realidade. Você não acha chapada demais esta paisagem? O céu, que outrora me despertava uma ânsia desconhecida, agora me parece apenas um cenário. Sinto-me enfurnada dentro de uma caixa e quando apago a vida — que nem sei o que é ou foi — afundo no infinito onírico e como isso é maravilhoso! Tenho medo de sonhar, mas sonho e sinto prazer. Que é prazer? Aqui na mesmice do virtual meus sentidos miram em algo denso, extremamente comovente e intenso ao máximo quando apenas o encaro. E isso me vem como tormento porque os teus olhos me refletem o nada que tanto busco! Olhos de quem também sonha, de quem afunda em si. Olhos de quem me desespera em silêncio.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Suspensa

Debaixo do céu de reboco, você caminha seu corpo expedido em outros temporais, com seus panos soltos, seu peito fechado na brasa, o coração morno. Ontem esbarrei no teu semblante nu de três anos atrás, por acaso. Reconheci pela firmeza das mãos açucaradas no encaixe de sua postura descansada. Que é você? Tanto implorei a Deus pra não me por diante de semelhante absurdo, temerosa de acabar imersa no impossível e suspensa do mundo, que agora me encontro exilada das linhas gerais dessa vida. Qualquer dia eu volto. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

.

cuspir a alma quando se está a sós com sua persona. by yourself. minha cabeça, essa ilha, despreza fluxos intensos de contato. basta a persona. quem tenta endireitar a porta inclinada que me fecha acaba metendo o dedo na carne viva. não me exponha. me desnudo somente em frente ao espelho. há um espelho de nervos por aí onde só vejo as costas. as dele, portanto eu. simpatizo com a margem porque estou nela. meto o pé descalço na lama com o carinho de quem sente saudade. daqui sei nada, mas tenho em mim um troço ancestral. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

pra não ter que dizer AH!

desdobro línguas 

em linha reta em ordem

me falsifico 


rasgo traços geométricos


aos toques mudos


reparo no que o escuro projeta


: me visita sempre um medo sólido


elegante até, quase excitante


que eu toco com os ouvidos


sou ridícula e muito agoniada 


tenho fome de falta de pedra de terra


e quando me tenho em potência


arrebentam pontos mornos 


como se fosse avalanche da cabeça


vindos de um nada histérico 


feito o cão


mas tudo isso eu disfarço.

escute

me desoriento de propósito
tenho no desequilíbrio
a igualdade de tormentos
de pesos bonitos
minhas extremidades roxas
este ferro sob a cabeça se contorce
apela às mãos carícia
que se faz um traço fino
no solo dos olhos
não me explico
desprezo cumes, rochas, palavras absolutas
em algum lugar em mim sei que me habito
reparo o sal no fundo d'água
não há pressa para arrebentar
há falha súbita no peito
dessas que me faz refutar saudade
que pede rigidez na sequência de erros
tenho um pé atrás da margem
e assim fico livre
: desespero dispara demência
não minto
me suspendo de vocês em silêncio
e traduzo: já saltei faz tempo sem síndrome
esbarrei no ar com meus olhos crus
o futuro amanhecido
sem voz, de tato quente, o cuspe seco
o corpo vazio.

domingo, 5 de outubro de 2014

antes de adão

eram as rachaduras da parede fria ou eram minhas veias? eu as tocava para tentar ficar acordada dentro daquele quarto pálido de hospital público. ao meu lado, ainda com a agulha espetada, dormia uma mulher que não parava de se mexer. metiam injeção na gente achando que íamos capotar, mas a cabeça é um troço que não sabe o que é paz. virei o rosto de volta para as rachaduras e vi mapas, rotas, caminhos, pés. quis correr, mas não conseguia.

dei pra sonhar que salto do topo de um prédio bem alto e ao mesmo tempo fico aguardando no chão, olhando pra cima, me vendo cair. já posso até criar um inventário onírico pessoal. nessas de saltar, outro dia voei numa boa. quando não salto, me afogo no raso e só consigo respirar quando o corpo já se foi.

jack london é meu pastor e nada me faltará.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ritalina

nuca em brasa febril.sonho sóbrio repetia:ritalina ritalina.alguém dizia pra eu focar num ponto só que a tontura passaria.eixo torto.sempre tenho a sensação de não estar aqui.uma sequência de socos na boca do estômago pra ver se eu aprendo.mamãe dizia pra eu parar de tomar remédio.vovó achou feia a minha foto nova que coloquei na estante.ritalina ritalina cantava em cima do meu olho direito a noite inteira.doía.só consigo te tocar pela ponta.ando tão seca por dentro.





terça-feira, 12 de agosto de 2014

descanso



ato
pato
prato
pranto

quinta-feira, 17 de julho de 2014

madeira

seus braços negros ondulam
serpenteiam nos meus olhos movediços 
minha fraqueza arde pelas marés doidas
apela pelo caos risonho e andarilho 

disseram-me: imploda-se!

nada passa de mim 
escrava dessas subst     ânsias 
interruptas de vazios espumas

sou toda vazamento mesmo oca 
e contemplo o tédio dos seus olhos
que ressuscitaram essas palavras 

quando o silêncio tinha peso 
quando o silêncio despia meu medo 
quando o silêncio me era desejo 

quando o silêncio

era seco
e explícito

tesão turvo. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

II

no abrigo do narciso
                                  vejo meu rosto inchado
as olheiras cinzas
                                  os lábios roxos de vinho
com rasgos que belisco
                                   até sangrar meu descuido

me aproximo do retrato
                                    colorido ao avesso
com a mão direita
                                    tapo um rosto 1/2
com a esquerda
                                    me despeço do reflexo

ME ASSUMO estilhaços
ME ASSUMO fragmentos
ME ASSUMO pedaços

sumo em direções diferentes pra lugar nenhum.



XII

no quintal dos meus sonhos
acaricio aquela cruz fincada em mim
e nela se pendura a musa puta
que te faz rasgar a crosta da pele absurda

demente por princípio 
delirante por base


é o amor líquido que escorre até o fundo
sou teu poço, 

                   fosso, 
                         poro solitário do corpo

contorno da escuridão no meio da rua
onde            me apago

                                  me apego 
                      me afasto

sou sua curva em rotação rítmica
me ajoelho no calvário pra te provocar ira

desabo

depois do rasgo dos cortes graves
bem no centro do seu colo ACELERADO
habitat natural do tempo abstraído
versículo&textículo do meu eu
convertido.

esquadro

triângulo de areia se fecha 
grudado nos meus olhos

onde desabou o teto
reina ele - o barco ébrio 

corre furioso ao limbo 
se banha de incêndio 
que queima de tão frio

sou cova que arde
não covarde

nos dedos tenho fios
manipulando cristos desmiolados

durmo com meu corpo absorto
na respiração reparada

penso em "crônica de uma morte anunciada"
e rio.

nota de quinta

a voz doce da dissimulação acalenta minhas sombras
que são suas
que tatuam minha pele com o contorno da agonia

te dobrando ao meio dentro da casa do desespero
convento ao avesso

contesto sua miserável dor
onde me puxam pelo braço
os tentáculos da conformidade

miram no meu peito um veneno sólido,
injetado em plena fúria

moribunda, vago pela rua rasa
caçando meus delírios oníricos

paixão turva&ébria afina meu ouvido
sou depósito onde te cantam dígitos solitários
esparramados

quando você era eu, já lhe pesava no osso fino a mão do não em ebulição

sobra'qui meu choro que não molha,
mas queima
vazo no precipício onde te esguio de beira.